segunda-feira, 6 de Julho de 2009

2- O Método Científico

Para que o trabalho seja eficaz, é necessário, ou pelo menos conveniente, que haja alguma sequência lógica nas tarefas que executamos. O método mais utilizado é o Método Científico.
2.1- O "Método Científico" na evolução da Ciência
“Começo, regra geral, as minhas lições sobre Método Científico dizendo aos meus alunos que o método científico não existe. Acrescento que tenho obrigação de saber isso, tendo eu sido, durante algum tempo, pelo menos, o único professor desse inexistente assunto em toda a Comunidade Britânica.(...) Tendo, então, explicado aos meus alunos que não há essa coisa que seria o método científico, apresso-me a começar o meu discurso, e ficamos ocupadíssimos. Pois um ano mal chega para roçar a superfície mesmo de um assunto inexistente.”

Karl R. Popper

A polémica que se tem vindo a desenvolver ao longo da história, relativamente ao método científico e à sua aplicabilidade, nomeadamente, a partir do século XX, tem se demonstrado extremamente importante para o desenvolvimento científico. Como Popper afirma no extracto de um dos seus textos, este assunto é extremamente complexo e amplo, pelo que me irei restringir aos assuntos mais importantes e de cuja relevância tenham resultado alterações em termos científicos e/ou na forma de pensar a Ciência.
O estatuto da Ciência tem variado bastante ao longo da história. O seu estatuto actual tem origem no século XVI, quando surgiu a Ciência moderna. A epistemologia (episteme + logos = discurso sobre a Ciência ) é a disciplina filosófica que se ocupa da análise e crítica do conhecimento científico, cujas características têm variado ao longo dos tempos.
Na Época Clássica e Idade Média, a Ciência, até ao século XVI, pode ser caracterizada como uma actividade essencialmente contemplativa, não tendo como objectivo a manipulação ou transformação da natureza para fins específicos, tratando-se, antes, de uma forma desinteressada de procurar o saber. O conhecimento científico apoia-se em procedimentos dedutivos. Partindo de princípios gerais extraí-se explicações de âmbito particular.
Na antiguidade clássica Platão e Aristóteles têm uma enorme influência sobre o desenvolvimento da Ciência, concebendo, ambos, o universo como estático e hierarquizado. A natureza está impregnada de racionalidade. Durante a Idade Média, na Europa, predomina a religião cristã. A Ciência está subordinada à filosofia, e esta à teologia. Deus é o criador de tudo o que existe. É em Deus que se deve procurar a finalidade e o sentido para tudo o que existe. Para além de Platão e Aristóteles, na Ciência destaca-se agora a influência de Stº. Agostinho e S.Tomás Aquino. O primeiro está próximo das ideias platónicas. O segundo, adapta as teses filosóficas aristotélicas à visão cristã do universo. A Ciência assume-se de uma forma dogmática, aceitando tudo de uma forma passiva, sem se preocupar com a veracidade dos assuntos abordados. A partir do século XIII desenvolve-se uma cultura livresca ( a escolástica).
Na Época Moderna, a Ciência foi “modelada” pelo Renascimento. Nos séculos XV e XVI critica-se o saber livresco, valoriza-se a observação directa e rigorosa, a experimentação e a técnica. Nos séculos XVI e XVII ocorrem importantes revoluções científicas, corporizadas as grandes descobertas geográficas, mas também nas de Copérnico, Galileu, Kleper Descartes, Leibniz e Newton. A Ciência separa-se da filosofia e desenvolve-se uma visão mecanicista do universo. A natureza é vista como um artefacto técnico, uma máquina, sendo o seu conhecimento acessível ao homem. Como numa máquina, os processos que ocorrem na natureza, são vistos como estando submetidos a leis matemáticas imutáveis. Difunde-se a crença na verdade absoluta do conhecimento científico, o qual caminhava para a resolução de todos os enigmas do universo. No século XIX, o positivismo será, neste aspecto, a consagração filosófica destas teses mecanicistas e deterministas. Galileu, atribui à observação, à experiência e à matematização do real uma função essencial na compreensão da natureza; Newton, procurou unir a matemática e a física, fortalecendo o método empírico. Estabeleceu a presença da lei e da ordem na natureza mediante as suas descobertas sobre o movimento dos corpos celestes. Mostrou que a natureza age racionalmente e não por acaso, estabelecendo o princípio base do determinismo: Se pudéssemos conhecer as posições e os impulsos das partículas materiais num dado momento, poderíamos deduzir pelo cálculo toda a evolução posterior do mundo.
O Positivismo, surge como corrente filosófica no século XIX defende que o único conhecimento genuíno é o da Ciência e o baseado em observações de factos. Rejeitou qualquer explicação sobre as coisas que ultrapassam a sua dimensão física. O positivismo acabou por influenciar profundamente as teorias científicas do século XIX e princípios do século XX. Em termos sociais contribuiu para a criação e difusão de grandes mitos sobre o conhecimento cientifico, de entre os quais o mito da cientifícidade, que proclamava o conhecimento científico como o único que é verdadeiro, o mito do progresso, onde o cientista era encarado como alguém acima dos interesses particulares, unicamente devotado ao saber pelo saber e o mito da tecnocracia, que considera que a resolução dos problemas da humanidade passa por confiar o poder a especialistas nas diversas áreas do conhecimento técnico e científico.
Na Época Contemporânea, século XX, assiste-se a uma progressiva crise das concepções deterministas herdadas do período anterior. O conhecimento cientifico deixa de ser visto como absoluto. Muitos dos mitos desenvolvidos em torno da Ciência são abandonados, em função dos excessos cometidos em nome da Ciência e do desenvolvimento, tais como a criação de armas de destruição massiva, a exploração excessiva dos recursos naturais, levando a dizimação de milhões de pessoas, quer através da guerra, quer através da fome. Surgem então novas concepções sobre a Ciência. Entre os teóricos da nova concepção da Ciência destacam-se Einstein (1879-1955), Heisenberg (1901-1976) ,Pierre Duhen (1861-1916), Gaston Bachelard (1884-1962), Karl Popper (1902-1994), Lakatos, Thomas Kuhn(1922) e Feyerabend (1924-1994). Os fundamentos da Ciência e da sua evolução são radicalmente alterados.
Einstein, no início do século XX destrói a concepção determinista do conhecimento científico, em que tinha assentado a Ciência moderna, ao negar a simultaneidade entre fenómenos acontecidos a grandes distâncias; Heisenberg, introduziu o princípio da incerteza, concluindo a destruição do determinismo da física newtoneana, tendo descoberto que era impossível determinar simultaneamente e com igual precisão a localização e a velocidade de um electrão. Quanto mais precisa for a previsão da posição de uma partícula, menos precisa será a previsão da sua velocidade e vice-versa. No século XX deixa-se de falar em certezas absolutas, para se falar de incertezas e probabilidades; Popper, que demonstrou toda a Ciência é baseada em conjecturas, de hipóteses que tentamos confirmar mas também refutar. A Ciência não é verdadeira, mas conjecturável. Uma experiência cujo resultado é previsto por uma teoria, não prova a exactidão dessa teoria, mas apenas se limita a não a refutar. A confirmação experimental não serve como prova de verdade, dado que pode estar a ser omitida uma excepção fundamental. Encontrar uma única excepção é, todavia, o bastante para reprovar - ou falsear -uma teoria. Uma teoria só é científica se a pudermos refutar. A principal tarefa de um cientista não é pois o de justificar ou provar as suas teses, mas sim o de as testar de forma a detectar ou eliminar falhas ou erros que possam conter (testabilidade), ou submetê-las a tentativas de refutação (falsficacionismo). Só através de um racionalismo crítico e aberto se dá, segundo Popper, o progresso no conhecimento científico; Feyerbend, demonstrou que a Ciência era avessa a métodos rígidos e universais. As grandes descobertas foram realizadas por aqueles que tiveram a ousadia de romper com os métodos correntes. Nada na Ciência é uniforme. As diferentes teorias científicas não passam de diferentes visões do mundo.
Duhem sustentou que na Ciência não existem começos absolutos. As grandes descobertas científicas foram preparadas por opiniões que remontam à antiguidade. O conhecimento científico progride por acumulação e alargamento de horizontes; Bachelard, concebeu a evolução da Ciência como um processo dinâmico de interacção entre a razão e a experiência. O progresso científico faz-se através de rupturas epistemológicas com o senso comum, as tradições, os erros e os preconceitos. A Ciência avança através da superação destes obstáculos; Khun concebe a evolução da Ciência, à semelhança de uma história política, como uma sucessão de revoluções, de rupturas, de alterações mais ou menos rápidas e de substituições dos diferentes paradigmas. A fase tranquila (a da Ciência normal) caracteriza-se pelo predomínio do paradigma dominante. Todas as explicações científicas são feitas no seu âmbito sem sofrerem contestação. A investigação científica incide sobre os fenómenos que se adequam ao paradigma, e os fenómenos que não se ajustam são desvalorizados ou passam despercebidos. Lentamente começam a aparecer anomalias, pequenas desarmonias com o paradigma dominante. A comunidade científica procede então a reajustes e reformulações no paradigma. Mas quando já não é possível integrar os novos factos com simples reformulações, a Ciência entra em crise. Esta fase é denominada por Ciência extraordinária ou anormal. Sucedem-se as polémicas, os ensaios e os confrontos de hipóteses de solução para os novos problemas surgidos que à luz do paradigma não se conseguem explicar. Esta crise acaba por conduzir a uma ruptura, um corte no paradigma dominante. Khun afasta-se deste modo da concepção tradicional do desenvolvimento do conhecimento cientifico, em que o mesmo era visto como um progresso contínuo e ininterrupto no sentido de uma maior verdade.
Foi grande a discussão que se desenvolveu entre alguns destes autores no que respeita à concepção da Ciência, nomeadamente no que se refere à forma como esta pode ser desenvolvida. O conceito de um Método Científico, associado à Ciência, definida como o saber produzido através do raciocínio lógico aliada à experimentação prática e caracterizando-se como um conjunto de paradigmas para a observação, identificação, descrição, investigação experimental e explanação teórica dos fenómenos, envolve técnicas exactas, objectivas e sistemáticas, implementadas através de regras fixas para a formação de conceitos, para a condução de observações, para a realização de experiências e para a validação de hipóteses explicativas, foi amplamente debatido.
O método científico, baseado na experimentação, começou com Abu Ali al-Hasan Ibn al-Haytham (965-1039), nascido em Basra, actual Iraque. Nos seus estudos de óptica, Kitab al-Manazir, traduzido para o latim como Opticae thesaurus Alhazeni em 1270, no qual discute a teoria da reflexão, para provar que a luz viaja do objecto até ao olho, proposto por Aristóteles, mas ao contrário do que havia sido proposto por Euclides e Ptolomeu (no Alamagesto), ele convidou pessoas a olhar fixamente para o Sol, e provou que quando se olha fixamente para o Sol, se queima o olho, provocando cegueira. A tradução dos seus textos para latim, levaram o inglês Roger Bacon (1214-1294) a publicar, no seu Opus Majus, "Argumentos não removem a dúvida, de forma que a mente possa descansar na certeza do conhecimento da verdade, a menos que a encontre a experimentação".
Um dos pilares do método científico é a chamada Navalha de Ockham, ou Lei da Parcimónia, ou ainda Lâmina de Ockham, proposta pelo filósofo franciscano inglês William de Ockham (1285-1349), que afirma que quando existem várias formas de explicar algo, a certa é a mais simples. Esta proposta foi publicada em seu trabalho Expositio aurea et admodum utilis super totam artem veterem.
Método, entre outras coisas, significa caminho para chegar a um fim ou pelo qual se atinge um objectivo. Que dizer então do método científico? Poder-se-ia dizer que é o caminho trilhado pelo cientista quando em busca de "verdades" científicas. Mas, quais são as "verdades" científicas? O que é ser cientista? Afirma-se, com grande frequência, que o cientista é aquele que utiliza o método científico. Os que aceitam esta verdade; e há muitos que o fazem; devem procurar uma conceptualização para o método científico diferente da exposta no parágrafo anterior, sob pena de andarem em círculo. Ou definimos cientista a partir da definição de método; algo tentado por Popper ao propor o falsificacionismo; ou definimos método a partir da definição de cientista; do contrário não chegamos a nada. Parece-me mais natural e óbvio manter a ideia que de método científico como caminho trilhado pelo cientista. Parafraseando um estudioso brasileiro sobres esta temática, Alberto Mesquita Filho, "Vejo a Ciência como a área do conhecimento que se apoia não num método, mas sim na regra da repetitividade, a que eu tenho chamado de regra científica fundamental: - Se em dadas condições, um determinado fenómeno, sempre que pesquisado, se repetiu, é de se admitir que em futuras verificações o mesmo suceda."
A regra científica fundamental, aceite, intuitivamente, por todos os cientistas, ocupa, entre os mesmos, e até entre os filósofos da Ciência, um papel secundário, quando não totalmente ignorada. Em regra, considera-se a Ciência como que suportada por regras, como por exemplo: o princípio da causalidade de Kant, a regra metodológica de Popper que se associa a seu método dedutivo de prova, o princípio ou argumento indutivista, e as regras ou critérios de utilidade. Como posições extremas, e apoiadas em regras mais rígidas, podemos citar a visão paradigmática de Thomas Khun, a defender o dogmatismo científico; o ponto de vista de Chalmers, a questionar a argumentação filosófica, no que diz respeito à delimitação da Ciência; e a visão anarquista de Feyerabend, a se opor frontalmente ao racionalismo em Ciência.
Algumas das concepções de Ciência anteriormente enunciadas,( Popper, Feyeraband, Kuhn, etc) estão associadas a propostas de definição do método científico, mas apesar do debate que se desenvolveu sobre este assunto, o método científico continua a ser aplicado e ensinado mundialmente, como a melhor forma de desenvolver um trabalho científico. O método mais utilizado em Ciência é o método experimental, que se pode decompor em três fases: a observação, a formulação de hipóteses e a verificação experimental ou experimentação. O método experimental funciona basicamente deste modo: o “cientista” começa por observar os facto ( a observação); depois, cria teorias para tentar explicar esses factos ( a formulação de hipóteses); finalmente, realiza diversas experiências para verificar se a hipótese se confirma. A este processo chama-se verificação experimental. Quando a hipótese se confirma um grande número de vezes, deixa de ser encarada como uma simples hipótese e pode adquirir o estatuto de lei científica. Apesar das suas limitações, o método científico veio substituir o que vigorou durante séculos como único critério de verificação da veracidade de um determinado ponto de vista, a “ verdade da autoridade”. O uso do método científico agrega vantagens específicas ao “saber” por ele produzido, incluindo: a produção de um conhecimento prático e aplicável, que pode ser usado directamente para a previsão e/ou controle de fenómenos e ocorrências; redução ou minimização dos vários tipos de dificuldades que podem surgir na observação e interpretação dos diversos fenómenos que se pretendem estudar e o fornecimento de suporte metodológico e representacional ao pensamento, permitindo o uso de ferramentas sócio – culturais e tecnológicas que favorecem a transcendência das limitações individuais do pesquisador/ “cientista” nas suas análises e interpretações. Assim, a Ciência desenvolve-se através de um processo complexo, demorado e de difícil execução, no entanto, o seu uso pode ser justificado pelos benefícios que pode trazer em termos de praticabilidade, transmissibilidade, verificabilidade, solidez e alcance. Mas a rigorosa aplicação do método, pode não resultar em qualquer desenvolvimento cientifico, até porque grande parte das descobertas científicas foram feitas por acaso, ou como afirmou Feyerabend, muitas das grandes descobertas e inovações da História da Ciência, como a teoria quântica, só aconteceram porque certos pensadores não respeitaram certas regras de método que se supunha serem óbvias.
A utilização do método científico, não é, por si só, um garante de sucesso científico, até porque muitas são as críticas que podem ser associadas ao mesmo, nomeadamente ao processo de observação dos fenómenos e aos argumentos indutivos que estão associados a essas mesmas observações.
A observação dos factos não é o ponto de partida da Ciência, porque já existem expectativas e ideias, ainda que vagas, mesmo antes de as observarmos; a observação dos factos não é neutra, porque essas expectativas interferem nas observações; isto é, existem em nós expectativas e conhecimentos anteriores á observação que influenciam o que se realmente observa; a observação dos factos é selectiva, porque num contexto científico, os “cientistas” escolhem apenas os aspectos da situação que lhes interessam para o seu estudo, tal como mostrou Popper aos seus alunos, quando numa aula lhes pediu para que com o auxílio de uma lápis e de umas folhas de papel, observassem cuidadosamente e que anotassem tudo o que tivessem observado. Popper solicitou isto aos seus alunos para que, depois de comparados os resultados, os mesmos podessem concluir que não é possível observar e registar todos os aspectos de todos os fenómenos, levando a que as escolhas recaíam sobre os aspectos sobre os quais mais se concentram.
Os argumento indutivos e dedutivos são conceitos classicamente adoptados como modelos de método científico. A indução é um tipo de argumento que privilegia a generalização a partir de um certo número de casos observados. Utilizando um exemplo de Popper, sempre que se observar um cisne, constata-se que as suas penas têm cor branca; ao fazer esta observação um grande número de vezes, e em todos os casos os cisnes apresentarem penas brancas, então se concluirmos que “todos os cisnes são brancos”, utilizamos um argumento dedutivo. Por outro lado a dedução é um tipo de argumento que parte de certas premissas e chega a uma conclusão que se segue logicamente das premissas. As premissas são as afirmações de onde se parte para se chegar à conclusão. Como exemplo, das premissas, “ todas as aves são animais” e “os cisnes são aves”, posso concluir que todos os cisnes são animais. Assim, enquanto os argumentos dedutivos preservam a verdade; os argumentos indutivos, com premissas verdadeiras, podem ou não, ter conclusões verdadeiras, ou seja, não preservam a verdade.
Apesar de se poder objectar todas as eventuais críticas feitas à observação; Popper no seu método das conjecturas e refutações, normalmente denominado de falsificacionismo, atribui um outro papel à observação; e à indução, considerando-a funcional na prática; como a melhor argumentação para prever o futuro e apesar de mesmo, que nunca possamos afirmar que a conclusão de um argumento intuitivo é absolutamente certa, podemos dizer que é muito provável que seja verdadeiro; no entanto o probabilismo incorre no mesmo erro do que o anterior; e embora reconheça o inegável valor do método científico e do conhecimento que dele possa resultar, considero de extrema importância que se mantenha um espírito crítico relativamente ao método, pois quando nos aproximamos dos limites da Ciência, numa dada perspectiva histórica, facilmente se poderão detectar graves problemas. Efectivamente, a aplicação do método científico a fenómenos mal conhecidos, particularmente quando o cerne deste reside em meras impressões subjectivas de alguém ou, de outra forma, quando o objecto de estudo se encontra “pré - contaminado” pela crença, popular ou erudita, verifica-se que as explicações resultantes da aplicação do método científico resultam muitas vezes em pseudo – Ciência. Com efeito, quando nos confrontamos com fenómenos que resistem ao seu enquadramento no campo do actualmente explicável, somos normalmente confrontados com dois tipos de explicação: a que toma como fundamento primeiro a sua inexplicabilidade, remetendo-nos para o sobrenatural, e a que aposta na possibilidade de efectiva explicação do fenómeno, ainda que nos limites da Ciência. A nossa sociedade tende a valorizar cada vez mais a segunda via, em detrimento da primeira. No entanto, a verdade é que se recorre demasiadas vezes ao método e a técnicas científicas para apresentar pseudo – explicações, que não passam de hipóteses de trabalho por demonstrar.
O desenvolvimento científico pode ser atingido de várias formas. Do empirismo de Bachelard, Locke e Hume ao relativismo de Kuhn, do racionalismo de Descartes ao idealismo de Kant, do falsificacionismo de Popper ao anarquismo de Feyerabend, ou aos programas de investigação científica de Lakatos, muitos foram os contributos para o desenvolvimento da Ciência e pensamento científico. De acordo com o desenvolvimento científico, também, ao longo da História, o conceito de cientista se foi alterando. De alguém sempre em busca da inovação, como defende Popper, a alguém sempre resistente à mudança, como refere Kuhn, ou como alguém útil à Ciência na primeira parte das suas vidas e prejudiciais na segunda, o conceito de cientista tem sido um reflexo real do estado da Ciência. A grande diversidade de opiniões e conceitos demonstra que este assunto não é pacífico, independentemente de se considerar um ou mais métodos para desenvolver a Ciência. O que de facto é importante é haver uma conciliação de esforços para que de uma forma simultaneamente coerente e auto - crítica se possa atingir a objectividade e a racionalidade científicas. No entanto, o mundo é, hoje, muito mais complexo do que alguma vez, anteriormente, se possa ter pensado, e muito mais complexo que a representação que dele fazemos no quadro de um pensamento científico, por mais actual que este se revele. A Ciência tem do mundo uma visão reducionista e fraccionante. O mundo revela-se, para cada nível de compreensão que o progresso da Ciência vai permitindo, cada vez mais complexo. Recentemente, tem-se vindo a desenvolver um novo campo de investigação, a Ciência do Caos, que se espera poder trazer repercussões importantes, nomeadamente, no que respeita ao modo de encarar o conhecimento do mundo e no tipo de programas de investigação.
A importância que a Ciência tem, actualmente, na nossa Sociedade, e a esperança que o Homem nela fielmente deposita, para a resolução de alguns, dos muitos problemas, que afectam, em inúmeros casos, irremediavelmente, várias das comunidades que constituem a Sociedade, deveria ser uma razão suficiente para que, apesar da politização que a mesma tem sofrido ao longo dos últimos anos e independentemente da forma ou método/métodos com que a mesma se desenvolve e progride, que haja uma “aliança” no sentido de colmatar os reais problemas da Humanidade. É necessário consciencializar a opinião pública, para a gravidade dos problemas sociais que, com objectividade e perseverança, podem ser resolvidos pela Ciência. Os estabelecimentos de ensino e uma política educativa eficaz, pelo menos pensada em conjunto por todos os seus intervenientes, poderá ser uma solução para este problema.
Para terminar, considero pertinentes e propositadas estas palavras de Carl Sagan:

"Há um certo receio (...) de que algumas coisas não são feitas para serem conhecidas, que algumas inquirições são muito perigosas para os seres humanos. Todas as pesquisas acarretam algum elemento de risco. Não há garantia de que o universo se conforme a nossas predisposições. O melhor meio de evitar abusos e incompreensões de parte a parte é tornar o povo cientificamente informado a fim de que compreenda as implicações de tais investigações.
Se a ciência for considerada um sacerdócio fechado, demasiado difícil e misterioso para compreensão de uma pessoa de cultura mediana, o perigo do desentendimento será maior. Se a ciência, porém, for um tópico de interesse e consideração geral, se seus encantos e consequências sociais forem discutidos com competência e regularidade nas escolas, na imprensa e à mesa de jantar, teremos aumentado as possibilidades de aprender como o mundo realmente é, para melhorarmos a ambos, a nós e a ele."

Carl E. Sagan (1934-1996)


1 comentário:

  1. Gostaria de parabenizar o autor deste texto sobre ciência por sua clareza expositiva e fidelidade aos autores mencionados no artigo. Contudo, gostaria apenas de dizer que no exemplo que se atribui a Popper para falar de indução, o exemplo dos cisnes, o autor desse texto, certamente por discuido ao digitar, atribuiu ao tipo de inferência que busca generalizações a partir de um cerrto número de casos observados de 'dedução', quando se trata da indução! No mais fico feliz em poder ler na internet um texto com fundamentação histórico-argumentativa tão bom como esse.

    Abraço!

    Att. Luis Fernando

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